Saturday, June 27, 2009

Inquérito de saúde recolhe informação sobre leishmaniose cutânea no assentamento rural de Rio Pardo, Presidente Figueiredo, AM




Entre os dias 16 e 27 novembro de 2008, decorreu o primeiro de uma série de inquéritos de saúde na comunidade rural de Rio Pardo, no município de Presidente Figueiredo, Amazonas. O inquérito foi organizado ao abrigo de um estudo epidemiológico de longo termo conduzido pelo Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz - Amazônia). Eu integrei como estudante de pós-graduação, uma equipe de 18 pessoas composta por médicos, biólogos, técnicos de laboratório, agentes de saúde e comunitários, aplicando questionários domiciliares e recolhendo informação que contribuirá para minha dissertação de mestrado: uma comparação do risco de transmissão de leishmaniose cutânea entre uma população de pesquisadores e uma população de assentados rurais. A leishmaniose cutânea é uma doença de transmissão tipicamente silvestre. Na comunidade de Rio Pardo, cerca de 110 km a norte de Manaus, vivem aproximadamente 140 famílias de pequenos proprietários rurais que estão diariamente expostos a ambientes silvestres, sejam eles de floresta secundária recente ou de floresta primária contínua. Neste inquérito registramos 60 casos de leishmaniose cutânea, cuja transmissão ocorreu na comunidade.

Um fato interessante é que 75% dos casos da doença reportados foram em homens entre 12 e 69 anos – apesar deste grupo de indivíduos constituir apenas 8% da população local. O número maior de casos de leishmaniose cutânea no sexo masculino pode ser explicado pelo fato dos homens assumirem comportamentos de risco com maior freqüência que as mulheres. Por exemplo, atividades como a caça, pesca e retirada de madeira, que expõem os indivíduos aos vetores da doença, são usualmente exercidas por homens. O próximo passo dessa investigação é a comparação dos resultados de Rio Pardo com a ocorrência de leishmaniose cutânea entre pesquisadores que visitaram os sítios de pesquisa do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais. Na população de pesquisadores não deverá haver diferença entre sexos, uma vez que homens e mulheres tendem a desempenhar atividades de pesquisa semelhantes, ficando igualmente expostos ao vetor da doença.

Outro ponto relevante foi que 10% dos casos de leishmaniose cutânea registrados foram em crianças de dois a sete anos de idade. Os casos infantis podem indicar que o vetor da doença está ocorrendo no domicílio, como já foi reportado na periferia de Manaus em um estudo feito pelo Dr. Jorge Guerra (Fundação de Medicina Tropical do Amazonas) e colegas, publicado na revista Acta Amazônica em 2007. Além disso, ainda que o principal vetor para leishmaniose cutânea prefira ambientes de floresta primária, a existência de áreas de floresta secundária em torno do domicílio pode suportar pequenas populações de vetores ou propiciar o deslocamento desses vetores até o domicílio. Futuramente, eu pretendo responder se a proporção de cobertura vegetal está influenciando a ocorrência dos casos da doença em Rio Pardo utilizando análises imagens de satélite de alta resolução.

Referências Bibliográficas

Guerra, J. A.O., Barbosa, M. G. V., Loureiro, A. C. S. P., Coelho, C. P., Rosa, G. G. & Coelho, L. I. A. C. R. 2007. Leishmaniose tegumentar americana em crianças: aspectos epidemiológicos de casos atendidos em Manaus, Amazonas, Brasil. Cadernos de Saúde Pública 23(9):2215-2223.